texto de CLAUDIUS PORTUGAL


É muito agradável se ler o segundo livro de um autor e poder dizer que é melhor que o primeiro. A síndrome do segundo, seja livro, disco, peça de teatro, filme, persegue qualquer autor, ainda mais quando o primeiro foi bem recebido. Assim torna-se um prazer a leitura que podemos fazer de um segundo livro quando este, no nosso entender, já empreende passos adiante o primeiro.

Isto me aconteceu ao ler “Rosália Roseiral”, segundo romance de Maria Guimarães Sampaio, ed. Record. E o acontecimento ainda fica mais alentador ao vermos que os personagens da história, a história de cada um deles continuam com a gente, mesmo após terminarmos o livro e fecharmos as suas páginas, pois seguimos de agora em diante íntimos da família, cúmplices de seus acontecimentos.

E como estão bem realizados alguns desses personagens!

Para exemplificar é bom citar, não só Totonho e Rosália, fio condutor da narrativa, mas também aqueles que mesmo não se estendendo caudalosamente por todo texto, impressiona pelo seu retrato, seu perfil, seu acabamento, e neste caso temos a professora Violette ou Camerino.

O livro de Maria Sampaio impressiona vivamente pela construção de seus personagens, apesar de que o tema e a história estejam bem objetivados e enredados, que a Bahia salte de cada parágrafo com o seu linguajar próprio e seus cheiros e temperos, ou a música popular brasileira, com um repertório que devia ser escutado conjuntamente, estando nestas canções o encadeamento de toda a história ao fazer da personagem título uma cantora da noite na Bahia, no Rio, em Portugal - quero observar que Portugal ganha uma descrição que nos deixa saber de como a autora carrega uma bela paixão por aquela terra -, e que a história do Brasil se movimente como pano de fundo por meio de sua política e sua economia.

“Rosália Roseiral” nos coloca diante de um livro com uma saborosa história, e esta está em seus personagens. Eles que a concretizam. O que posso dizer é que é um livro que não nos larga, mesmo depois de fechado, pois ficamos a pensar na Bahia que está ali, na graça e felicidade deste existir que a pressa da vida vem derrubando.

O que seríamos se a história seguisse outros passos? Não sem vicissitudes, amargores, pois tudo isto faz parte da vida, mas como seríamos diferentes se a amizade, a existência do outro, o convívio humano fosse privilegiado como temos no cerne deste texto? Mas a realidade é outra, e para isto o livro tem no personagem Joãozito, talvez, a encarnação bem realizada desta realidade atual.

Por ser assim, “Rosália Roseiral”, romance de Maria Guimarães Sampaio, reflete o nosso tempo através de uma família baiana que atravessa o século XX, e nós podemos ler com certa ponta de tristeza que muito do que ali existe de amizade, encontro, felicidade, já tenha, talvez, se findado, pelo menos daquela maneira, mas com a imensa alegria de ver que a literatura pode fazê-la permanecer através do encantamento de um romance, de sua história e de sua leitura, e que este segundo livro consagra uma vigorosa narradora.

(Claudius Portugal, 15-07-08, Rádio Educadora, programa Multicultura}

3 comentários:

Janaina Amado disse...

Ótimo o texto de Claudius, Maria. Beleza.

Fred Matos disse...

Ótimo comentário. Parabéns, Maria. Será que acho o livro aqui em Maceió?
Beijos

Martha disse...

Vigorosíssima e encantadora narradora.

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